O BIBLIOTECÁRIO E SUAS PRÁTICAS NA CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Valdir José Morigi

Samile Andréa de Souza Vanz

Karina Galdino

Resumo

Objetiva refletir sobre as práticas da profissão do bibliotecário no mundo contemporâneo a partir dos conceitos de cidadania e suas diferentes abordagens. Nesse contexto, a informação é concebida como um elemento essencial para que os sujeitos sociais construam e exerçam sua cidadania. O bibliotecário se coloca como um mediador nesse processo, pois catalisa e
dissemina a informação para a sociedade. Nessa perspectiva, surge a necessidade de uma reflexão sobre suas práticas e o repensar uma nova postura política diante das mudanças no cenário global.

Palavras-chave: Cidadania; Bibliotecário – Práticas Profissionais; Perfil Profissional.

1 INTRODUÇÃO

A proposta do XXI Painel de Biblioteconomia em Santa
Catarina instigou a reflexão sobre a temática, uma vez que, nos
dias atuais, não se pode pensar em informação e
biblioteconomia sem vinculá-las com a questão da cidadania. O
bibliotecário é o profissional que trabalha como catalisador e
disseminador da informação, bem simbólico e elemento chave
na conquista da cidadania. Além disso, é um educador, pois a
biblioteca é um locus privilegiado do debate, uma esfera de
discussão política e uma instituição responsável pela
democratização da informação.

Por outro lado, com a força das organizações
internacionais e a pressão dos movimentos sociais organizados,
há uma tendência à universalização da declaração dos direitos
humanos em todo o globo. Processo que se expande através da
conscientização, do acesso e do uso cada vez maior e mais
constante das tecnologias de informação e comunicação,
tornando possível a participação e controle efetivo, por parte dos
cidadãos, dos programas e ações dos governos em âmbito local,
regional, nacional e internacional.

A categoria cidadão foi tratada tradicionalmente como
uma categoria territorial. No entanto, questões atuais
relacionadas à agressão do meio ambiente, poluição da água e
do ar e o desmatamento em um determinado país produzem
efeitos em vários locais do planeta, rompendo a noção de
cidadania enquanto categoria territorializada alicerçada no
estado-nação e ampliando a noção de cidadão e cidadania,
abrindo assim, novas perspectivas de entendimento e
possibilidades para a efetivação da cidadania em escala
planetária.

Tendo em vista essa nova configuração histórico-social, o
objetivo deste trabalho consiste em refletir sobre as práticas do
bibliotecário a partir dos conceitos básicos de cidadania e de
suas diversas abordagens teóricas, procurando verificar em que
medida a informação e o profissional ajudam os cidadãos a
exercerem a sua cidadania na emergente sociedade
informacional.

2 O QUE É CIDADANIA?

No final do século XX assistiu-se, em todo o mundo, a um
maior interesse pelos temas relacionados com a cidadania e o
crescimento nos estudos sobre a questão. Porém, não existe um
consenso em torno do conceito de cidadania. Ao contrário,
existem muitas ambigüidades em torno de sua definição. Mesmo
assim, optou-se por refletir sobre a categoria cidadania a partir
de duas principais óticas teóricas que se seguem.

A primeira abordagem, mais tradicional, que concebe a
cidadania enquanto direito a ter direitos, foi elaborada sob
várias perspectivas teóricas; entre elas, tornou-se clássica a
Teoria de Thomas H. Marshall (1967). O Autor fez um estudo
centrado na realidade britânica da época, estabelecendo uma
tipologia dos direitos de cidadania: os direitos civis,
conquistados no século XVIII; os direitos políticos, alcançados
no século XIX; e os direitos sociais, conquistados no século XX.
Segundo o Autor, não se trata apenas de uma seqüência
cronológica, mas também lógica, pois foi a partir do exercício
das liberdades individuais, que compõem os direitos civis, que
os ingleses conquistaram o direito de votar e de participar da
vida política do seu país, fazendo surgir os direitos políticos. A
participação levou ao poder os operários que criaram o Partido
Trabalhista, responsável pela introdução dos direitos sociais.

Conforme aponta Carvalho (2001, p.11): “o surgimento
seqüencial dos direitos sugere que a própria idéia de direitos, e
portanto, a própria cidadania, é um fenômeno histórico”.
Segundo essa perspectiva, na sociedade ocidental o ideal de
cidadania plena pode ser o mesmo (a conquista dos direitos
civis, políticos e sociais). Entretanto, os percursos podem ser
diferentes, com retrocessos e desvios de rumo que Marshall não
previu. Vários países europeus, e mesmo o Brasil, não seguiram
essa trajetória do modelo inglês. Assim, o caso inglês possuía
uma lógica e a modificação, nesta lógica, transforma a natureza
da cidadania.

Na abordagem de Marshall (1967), são entendidos como
direitos civis os inerentes à liberdade individual: direito de ir e
vir, à propriedade, à justiça, à liberdade de expressão individual
e de imprensa. Fazem parte dos direitos políticos a possibilidade
de exercer o poder político ou participar dele. Os direitos sociais
são constituídos de tudo o que assegura condições de vida digna
e bem-estar social, como o direito à educação, saúde, segurança,
habitação e emprego.

A cidadania, apesar de estendida a todos, é vista pelo
Autor como um conjunto de direitos e deveres. Entretanto, a
cidadania transcende o conjunto de direitos e deveres, já que
outros elementos interferem em sua determinação, como a
situação de classe social. Nesse sentido, Vieira (2001) e outros
autores tecem várias críticas à concepção de cidadania de
Marshall, baseada nas conquistas inglesas nos séculos XVIII,
XIX e XX; entre elas a forma apolítica com que o Autor aborda
a questão da conquista desses direitos, consolidados através de
lutas; o fato de o Autor ter desconsiderado a influência que a
religião teve na promoção da ética do individualismo – ética
protestante do capitalismo – tão cara ao processo; e a crítica
marxista se refere à uniformização do indivíduo-cidadão, pleno
e igual, indiferente às questões de classe social.

A visão político-jurídica, que se baseia na noção de
direitos formais e normas prescritas, percebe a cidadania
apoiada na democracia, que por sua vez se apóia nos direitos
fundamentais do cidadão: os direitos civis, políticos e sociais.
Desses três direitos derivam tantos outros como, por exemplo, o
acesso às novas tecnologias, direito à informação, direito do
cidadão de exigir a qualidade anunciada nos produtos que
compra, entre outros. Como aponta Gadotti (2000), dessa forma
restrita de compreender a cidadania derivou a concepção
consumista de cidadania. Ele se apóia na competitividade da
sociedade capitalista; uma espécie de cidadania de mercado, que
dá fundamento e reforça a noção de direito dos consumidores.
Essa maneira de ver a cidadania é limitada aos direitos
individuais. Eles são vitais para a liberdade de ação dos
indivíduos. Para a concepção liberal, a relação entre direitos e
obrigações é contratual, pois a cada direito corresponde, em
geral, uma obrigação. Nessa visão, a cidadania é percebida
como um produto da solidariedade individual de pessoas de bem
e não como um produto da ação, de luta e de conquista no
interior do próprio Estado.

O princípio básico da cidadania se apóia na idéia de
igualdade, chocando-se com as bases do capitalismo. Quando se
trata de cidadania, é imprescindível que se faça referência ao
sistema capitalista, onde a cidadania pode assumir o caráter de
uma concessão determinada pela condição social do indivíduo.
Por sua essência baseada nas desigualdades sociais, o
capitalismo acaba por determinar que a liberdade e igualdade
asseguradas legalmente a todo ser humano sejam determinadas
pelo papel social que o indivíduo desempenha nas práticas
cotidianas e relações de trabalho. Mas essa relação conflituosa
entre trabalho e capital possibilita o surgimento das utopias
sociais. É nessa perspectiva de debater cidadania que o acesso à
informação aparece como fundamental para o seu exercício.

O conceito político-jurídico torna-se insuficiente para
entender a cidadania diante da complexidade das recentes
mudanças e transformações do contexto. Os impactos das
tecnologias de informação e comunicação e a dinâmica da
sociedade em rede propõem um repensar sobre o tema. Dessa
maneira, é preciso compreender a cidadania sob suas múltiplas
óticas, considerando as mudanças em curso e as novas
configurações das sociedades em todo o planeta. Assim, a
cidadania não pode ser encarada apenas como um conjunto de
direitos formais, mas sim como um modo de incorporação dos
sujeitos e de grupos no cenário social.

Vieira (2001) reúne inúmeras definições de cidadania,
provenientes de diversos países e autores. Janoski apud Vieira
(2001, p.34) conceitua cidadania como “[...] a pertença passiva e
ativa de indivíduos em um Estado-nação com certos direitos e
obrigações universais em um específico nível de igualdade”.
Carvalho apud Cepik (2000) contribui afirmando que a
cidadania é também a sensação de pertença a uma comunidade,
de participar dos valores comuns, de uma história comum, de
experiências comuns. Identidade nacional e cidadania, sem
confundir-se, se reforçam mutuamente.

Com a emergência da Sociedade da Informação no final do
século XX e sua intensificação no início do XXI e o crescimento
e fragmentação das sociedades contemporâneas e
conseqüentemente a criação de novos territórios, a noção de
pertencimento ao Estado-nação entra em crise, elevando o papel
das identidades socioculturais. A questão das identidades
adquire uma relevância maior, as pessoas tendem a se reagrupar
em torno de identidades primárias, a busca pela identidade –
coletiva e individual – concedida ou construída – torna-se a
fonte básica de significação social. Cada vez mais as pessoas
passam a organizar os seus significados baseados nas
representações que fazem de si e dos grupos aos quais
pertencem.

Vieira (2001) aponta algumas razões do enfraquecimento
nas relações entre o Estado-nação e o cidadão, como as
migrações em massa, a globalização da economia, comunicação
e informação, e a luta pelos Direitos Humanos Universais e seu
reconhecimento, onde a proteção do cidadão deixa de ser
exclusiva do Estado-nação. As transformações teóricas e os
acontecimentos políticos ocorridos nas últimas décadas,
modificaram a concepção do conceito de cidadania, agregando a
ele uma dimensão maior do que direitos e deveres, incluindo
questões de etnia, exclusão social e ecologia.

Na pós-modernidade1, a fragmentação social se propaga à
medida que surgem novos grupos com identidades mais
flexíveis, móveis e singulares, tornando cada vez mais difícil a
capacidade de compartilhar valores sociais. O pertencimento
social passa a ocorrer pelas identidades compartilhadas.

A segunda abordagem trata de uma concepção mais
contemporânea de cidadania, que está associada à noção de
cidadania planetária (mundial), referida em diversas falas,
discursos políticos, textos jornalísticos e publicitários através da
expressão cidadãos do mundo. Em que consiste isso? Conforme
Boff (1996), cidadania planetária é uma expressão adotada para
designar um conjunto de princípios, atitudes, valores e
comportamentos que demonstram uma nova visão sobre a Terra
como uma comunidade única a que pertencemos como seres
humanos. Nessa concepção, a nossa identidade terrena difere da
cidadania global, associada ao processo de globalização,
conseqüência dos avanços tecnológicos e científicos.

Essa concepção de sociedade mundial, de cidadania
planetária, se manifesta em expressões diferenciadas como
nossa pátria comum, nossa humanidade comum, unidade na
diversidade. Isso implica uma noção diferente de espaço, pois o
cidadão agora não pertence mais unicamente a um Estado-nação
territorial, mas ele passa a fazer parte de um espaço
desterritorializado, ele é cidadão do planeta. Os direitos civis,
políticos e sociais restritos aos territórios do Estado-nação se
ampliam e, nesse novo cenário, passam a valer os direitos em
sua forma ampliada como a Declaração Universal dos Direitos
Humanos. Porém, essa desterritorialização e pertencimento a
uma cidadania planetária, que leva a um novo
redimensionamento do cidadão e da cidadania, requerem
também um novo aprendizado. Conforme se refere Morin (2001,
p.13), ao refletir sobre a teoria da complexidade e os princípios
da reforma do pensamento:
[...] a hiperespecialização impede de ver o global
(que ela fragmenta em parcelas), bem como o
essencial (que ela dilui). [...] os problemas
essenciais nunca são parceláveis, e os problemas
globais são cada vez mais essenciais. Além disso,
todos os problemas particulares só podem ser
posicionados e pensados corretamente em seus
contextos, e o próprio contexto desses problemas
deve ser posicionado, cada vez mais, no contexto
planetário.
Segundo o Autor, esses princípios devem levar em conta a
aprendizagem cidadã. Em que consiste essa aprendizagem? Em
poucas palavras, consiste em um novo ensinamento que faça
uma revisão sobre o que é uma nação nesse novo contexto que
se apresenta, o que é ser cidadão no seio de uma nação, de uma
cultura. A aprendizagem cidadã deve incorporar a dimensão do
cidadão como pertencente a uma comunidade local, regional,
nacional e também global. Isto é, oferecer a possibilidade de
cada um desenvolver uma cidadania nacional, continental e
também uma cidadania planetária. Assim, o ensino deve
favorecer uma aprendizagem que contribua para o enraizamento
de cada sujeito em sua história e sua cultura, demonstrando que
elas (história e cultura) possuem vínculos com a história da
humanidade e do próprio mundo.

3 O BIBLIOTECÁRIO E AS SUAS PRÁTICAS: A INFORMAÇÃO E A CIDADANIA

Conforme o exposto acima, conclui-se que a educação é
um fator-chave no processo do indivíduo tornar-se cidadão e
lutar pelo exercício e respeito de sua cidadania.

Como o bibliotecário deve se posicionar diante do cenário
que se desenha, frente à Sociedade da Informação? A
informação é considerada um bem simbólico e o seu acesso é
essencial para que a cidadania se efetive de forma plena, sendo
assim o profissional deve colocar-se de forma ativa diante de
sua responsabilidade social como educador. Não basta apenas
realizar procedimentos técnicos (classificar, catalogar e indexar),
estes, sem dúvida, são muito importantes para a formação do
profissional. Entretanto, os bibliotecários devem ir além destes
saberes e atividades técnicas, precisam buscar elementos
teóricos ligados às ciências humanas, que fortaleçam a sua
condição de cidadãos e profissionais.

No entanto, sabe-se que a atuação do indivíduo na
sociedade é definida, em última análise, por sua formação
cultural e educacional. O conhecimento não é inato no
indivíduo, ele é adquirido através da aprendizagem tácita – na
descoberta e interação com o mundo que o cerca – ou formal –
através das instituições sociais formadoras como a família, a
igreja e a escola. A escola é responsável pela formação do
conhecimento formal adquirido, nela o indivíduo, ao longo do
tempo, entra em contato com a informação nos mais variados
formatos.

A educação, segundo Targino (1991), situa-se na base
mais elementar dos direitos sociais, sendo obrigatória para todos
aqueles em idade escolar. A Autora argumenta que o
reconhecimento do direito das crianças à educação não afeta o
status da cidadania, simplesmente porque as crianças não são
cidadãos. Entretanto, a educação das crianças está diretamente
vinculada à concepção da cidadania, pois o objetivo da educação
durante a infância é formar o adulto pleno. Dessa forma,
considera-se não o direito da criança à escola, mas o direito do
cidadão adulto ter sido educado e informado.

O direito à educação pressupõe de imediato o direito ao
acesso à informação, uma vez que a informação é parte do
processo educativo. Conforme Targino (1991), a informação é
um bem comum, que pode e deve atuar como fator de
integração, democratização, igualdade, cidadania, libertação,
dignidade pessoal. Segundo a Autora (1991, p.155) “[...] não há
exercício de cidadania sem informação. Isto porque até para
cumprir seus deveres e reivindicar seus direitos, sejam eles civis,
políticos ou sociais, o cidadão precisa conhecer e reconhecê-los
e isto é informação”.

A informação é um direito social do indivíduo e o acesso a
ela é exatamente esse direito de ser informado, o direito de saber
das coisas, numa linguagem muito simples, segundo Mota
(1986). A cidadania e o processo de construção do cidadão são
inerentes ao acesso à informação porque, segundo o autor, os
dois processos são simultâneos e absolutamente imprescindíveis
um do outro.

O profissional bibliotecário trabalha com a informação, o
elemento que, como já afirmado anteriormente, permite a todos
o ajuste ao mundo exterior, de forma legítima e coerente,
conquistando o status de cidadãos. O seu dever enquanto
cidadão ou enquanto profissional é agir como catalisador e
difusor da informação na comunidade onde atua. A
Biblioteconomia moderna está cercada de atividades tecnicistas,
que são, sem dúvida, importantes na manutenção de sistemas e
para a organização de bibliotecas e centros de informação. Nelas
estão inseridos a geração e o gerenciamento eletrônico de
documentos, mas, normalmente, esquece-se do papel social do
profissional. Falta recuperar a função social da biblioteca.
Targino (1991) afirmou que é necessário sobrepor a idéia da
biblioteca como o armazenamento do saber, e assimilar que, no
contexto atual, a biblioteca é uma rede de serviços de
informação, e não mais a coleção estática de impressos e /ou
audiovisuais.

A respeito da discrepância entre os serviços
superespecializados prestados por algumas bibliotecas, a uma
parcela ínfima da população, e o serviço prestado por bibliotecas
públicas à população, Vergueiro (1988) complementa afirmando
que é difícil acreditar que isto não seja conseqüência de uma
decisão a favor da manutenção de uma mentalidade passiva e
não reivindicatória, e que é difícil aceitar que a decisão técnica,
dentro do contexto bibliotecário, esteja totalmente desvinculada
de fatores político-ideológicos. O Autor acredita que falta ao
bibliotecário brasileiro a consciência de que a biblioteca pode
atuar como instrumento de mudança social, apontando um
caminho que conduza para a modificação de alguns
pressupostos filosóficos e éticos da profissão, a começar por
aqueles que defendem a neutralidade da mesma. Um desafio que
todos vão ter que enfrentar.

Hoje, a sociedade necessita de profissionais qualificados
tecnicamente, mas também críticos o suficiente para exercerem
sua profissão dignamente. Conforme Souza (1994), os
bibliotecários aparentemente teriam que assumir a consciência
de que o direito à cidadania é um direito também à construção
do próprio discurso. Segundo o Autor, as entidades de classe
precisariam construir a cidadania, indo além do discurso,
praticando os seus discursos.

Targino (1991), afirma que a democratização da
informação para a promoção da cidadania deve ser exercida
dentro de qualquer biblioteca, mas é na biblioteca pública que
ela assume maior dimensão. Acredita-se que essa promoção
favorece a compreensão dos direitos e deveres de cada cidadão e
o bibliotecário, consciente e engajado no seu papel social, pode
colocar em prática o seu discurso sobre o significado da
informação para a construção da cidadania.

Por isso, Morin (2001), quando reflete sobre a necessidade
de repensar a reforma e reformar o pensamento dá ênfase à
superação da visão fragmentada entre os diferentes saberes
constituídos, propondo uma integração entre eles, recuperando o
paradigma que procura compreender a totalidade do real. Assim,
a Biblioteconomia precisa ser vista como parte da totalidade do
processo de constituição da configuração histórica da sociedade.

4 CONCLUSÃO

O progresso e o desenvolvimento capitalista globalizado
trouxeram inúmeros problemas para todos os cidadãos do
planeta, principalmente os relacionados com a ecologia. Estes
deixaram de ser circunscritos e delimitados a determinada área
geográfica, passando a ser pensados em escala global e assim
eles precisam ser compreendidos. A questão da cidadania deixou
de ser apenas uma preocupação de interesse exclusivo das
Ciências Humanas e Sociais. A Ciência da Informação também
a elegeu como uma de suas prioridades, principalmente com o
avanço das tecnologias de informação e comunicação, a
sociedade conectada através das redes, possibilitou com maior
rapidez a disseminação da informação. Desta forma, não apenas
romperam-se as fronteiras entre as áreas do conhecimento que
demarcavam campos rígidos do saber, mas também as questões
relativas à cidadania tornaram-se questões globais, que
interessam a todos os cidadãos planetários.

A literatura consultada previa, no final dos anos 80, a
necessidade de transformações nas práticas da profissão. Desde
aquela época, os autores já afirmavam que a mudança era difícil
de acontecer, pois algumas convicções estavam (e continuam)
arraigadas, nas suas práticas profissionais, sustentadas pela visão
de mundo tecnicista da profissão. O bibliotecário continua sendo
identificado como um profissional totalmente apolítico, apático,
neutro, distante das questões sociais e das discussões políticas.
Entretanto, com as mudanças paradigmáticas, a emergência e
consolidação da Sociedade da Informação e a universalização
dos direitos à informação, uma nova postura é esperada deste
profissional.

Observa-se também a tendência global do debate sobre o
tema cidadania. Isso se evidenciou nos últimos Congressos
Brasileiros de Biblioteconomia e Documentação, nas Jornadas
de Biblioteconomia e em diversos grupos de trabalho durante o
Fórum Social Mundial. Acredita-se que o profissional esteja
mais consciente e preocupado com a sua responsabilidade social
perante a população.

Entretanto, há muito o que fazer em relação à incorporação
de novas práticas nas atividades dos profissionais bibliotecários.
Eles precisam estar atentos às mudanças que estão ocorrendo no
contexto social atual e também participar dos movimentos
sociais para inovarem sua própria prática profissional, pois o
engajamento nos movimentos sociais pode levar este a uma
reflexão sobre sua própria prática. A partir dela realizar
modificações substanciais nas suas práticas tradicionais,
arraigadas na profissão, assumindo uma postura de educador,
pois ouvindo os interesses dos diversos grupos sociais pode
emergir um novo perfil do profissional, mais consciente,
atuante, voltado aos interesses coletivos.

Diante das reflexões acima, qual deve ser o perfil do
bibliotecário neste contexto de mudanças? Qual o seu papel no
processo de construção da cidadania? Deve rever as suas
práticas? Acredita-se que o profissional precisa assumir a sua
condição de educador. Contudo, essa condição deve vir
acompanhada por uma mudança na concepção que reflita na
postura do profissional e de suas práticas. A biblioteca precisa
ser percebida como um lugar que transcende o espaço físico,
onde se encontram os suportes da informação adequadamente
organizados, mas como um espaço público e democrático, da
pluralidade de idéias e o lugar do debate. O conjunto de técnicas
aprendidas na profissão precisam ser encaradas não mais de
forma neutra, como se não tivessem nada a ver com o contexto
histórico e social que as produziram. Elas são o produto das
relações de luta entre os grupos sociais e os seus diferentes
interesses em conflito, por isso elas refletem modos de pensar,
resultado desses embates ideológicos em choque.

O bibliotecário é uma peça importante para o conjunto
social na construção da aprendizagem cidadã, através de seu
saber e competência que possibilita o acesso rápido à
informação. Além disso, ele pode promover atividades não
apenas instituídas, mas instituintes como por exemplo,
incentivar a constituição de uma Biblioteca Cidadã. Como
educador, sua ação deve ser pautada em valores democráticos,
solidários e de responsabilidade em relação ao planeta,
considerando também o enraizamento de sua identidade
nacional. Na posição de mediador da informação e ações, o
profissional é convidado a rever suas práticas, adotando uma
postura metodológica transdisciplinar. Para isso é necessário
modificar a sua visão de mundo e da própria profissão.

NOTA

1 Conceito de pós-modernidade é utilizado na acepção de HALL, Stuart. A
Identidade Cultural na Pós-Modernidade.
Rio de Janeiro: DP&A, 1997

REFERÊNCIAS

BOFF, Leonardo. Ecologia, o Grito da Terra, o Grito dos Pobres. São Paulo:
Ática, 1996.
CARVALHO, Murilo de. A Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
CEPIK, Marco. Direito à informação: situação legal e desafios. Revista de
Informática Pública
, Belo horizonte, v.2, n.2, maio. 2000.
GADOTTI, Moacir. Perspectivas Atuais da Educação. Porto Alegre:
Artmed, 2000.
MARSHALL, T. H. Cidadania, Classe Social e Status. Rio de Janeiro:
Zahar, 1967.
MORIN, Edgar. Cabeça-bem-feita: repensar a reforma, reformar o
pensamento. 5.ed. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2001.
MOTA, Luis Gonzaga da. A cidadania e os meios de comunicação. In:
TEIXEIRA, João Gabriel Lima Cruz. A Construção da Cidadania. Brasília:
UNB, 1986. p.237-268.
SOUZA, Francisco das Chagas. Construindo a cidadania? Informação &
Sociedade
, João Pessoa, v.4, n.1, p.7-16. 1994.
TARGINO, Maria das Graças. Biblioteconomia, Informação e Cidadania.
Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, Belo Horizonte, v.20, n.2,
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VERGUEIRO, Waldomiro de Castro S. Bibliotecário e mudança social: por
um bibliotecário ao lado do povo. Revista de Biblioteconomia de Brasília,
Brasília, v.16, n.2, p. 207-215, jul./dez. 1988.
VIEIRA, Liszt. Os Argonautas da Cidadania. Rio de Janeiro: Record, 2001.

_____________

THE LIBRARIAN AND HIS PRACTICES IN THE BUILDUP OF CITIZENSHIP

Abstract

Its primary goal is to think about the librarian professional practices in the
contemporary world starting from the citizenship concepts and its diferent
approaches. In this context, the information is drawn up like an essencial
element for the social characters to build and practice their citizenship. The
librarian fits in this process as a mediator, for he catalyses and disseminates
the information to the society. In this perspective, there is a necessity of a
reflection concerning the practice and a new politic bearing in face of the
changes of the global scenario.

Keywords:
Citizenship; librarian – professional practices; professional
profiles.
_____________

Valdir José Morigi

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo,
Professor Adjunto no Departamento de Ciências da Informação
e Professor no Programa de Pós-Graduação Comunicação e
Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
E-mail: vjmorigi@adufrgs.ufrgs.br

Samile Andréa de Souza Vanz

Bibliotecária, mestranda do Programa de Pós-graduação
Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. E-mail: samilevanz@terra.com.br

Karina Galdino

Mestranda do Programa de Pós-graduação Comunicação e
Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
E-mail: karinagaldino@bol.com.br

Rev. ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, v. 7, n. 2, p.134-147, 2002.


Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis (Brasil) - ISSN 1414-0594

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