A APLICAÇÃO DA BIBLIOTERAPIA EM CRIANÇAS ENFERMAS

Silvana Beatriz Bueno

Clarice Fortkamp Caldin

Resumo

Discorre sobre a aplicação da biblioterapia em crianças enfermas, a importância da leitura na busca da prevenção e educação, bem como sua função terapêutica. Apresenta um relato das atividades de biblioterapia desenvolvidas na ala pediátrica do Hospital Universitário em Florianópolis - SC. Analisa o comportamento das crianças hospitalizadas frente à prática da
leitura com metodologias dinâmicas. Com base nestas atividades pôde-se perceber que a biblioterapia aplicada a crianças enfermas alivia suas tensões, angústias e medos, desenvolve a imaginação, favorece a introspecção, a catarse e ajuda no crescimento emocional e psicológico. Conclui que a biblioterapia é uma ferramenta para a semiologia e a terapêutica, favorecendo a humanização das mesmas e ajudando na recuperação das crianças.

Palavras-chave: Biblioterapia; Crianças hospitalizadas; Leitura; Crianças hospitalizadas - recuperação

1 INTRODUÇÃO

Há milênios, observa-se entre os povos o legado de deixar
marcas de sua existência, seja ela escrita ou falada. A escrita
alfabética surgiu em torno de 1500 a.C., começou a formar-se no
seio da cultura semita, provavelmente na Síria. Foi utilizada por
numerosos povos antigos, e posteriormente permitiu aos fenícios
criar seu alfabeto, que disseminaram por todos os países a que
levaram sua civilização. Os povos foram, sem dúvida,
influenciados pela escrita hieroglífica do Egito. A fala muitas
vezes era representada através de desenhos feitos nas paredes, os
quais transmitiam sempre uma mensagem.

Nas parábolas contadas por Jesus a seus discípulos,
notava-se a preocupação em instruir, ensinar e disseminar o
aprendizado adquirido através da narração. Os ensinamentos
deveriam ser transmitidos para outros povos com o propósito da
evolução do homem, de seu caráter e espírito.

Ao longo do tempo, notou-se que a aplicação da leitura ou
a narração de histórias produziam no indivíduo um alívio de
suas angústias e medos, visando à terapia, “parte da medicina
que estuda e põe em prática os meios adequados para aliviar ou
curar os doentes” (FERREIRA, 1985, p. 464). Usou-se a leitura
como um dos meios adequados para desenvolver nas crianças
um processo de transição entre a realidade e a ficção,
estimulando a imaginação e a emoção, produzindo sentimentos
diversos.

Com a união destes dois termos, leitura e terapia, surgiu a
biblioterapia, definida como um processo dinâmico de interação
entre o leitor, o texto e o ouvinte, ajudando no crescimento
emocional e psicológico.

Este artigo foi desenvolvido respaldado no Curso de
Biblioterapia, ministrado pela professora Clarice Fortkamp
Caldin, do Departamento de Ciência da Informação da
Universidade Federal de Santa Catarina. Objetivou-se
desenvolver a introjeção, a projeção, a identificação, a catarse, a
imaginação, a introspecção, a criatividade, e a reabilitação no
público-alvo das atividades biblioterapêuticas. As atividades
práticas foram realizadas na ala pediátrica do Hospital
Universitário, com crianças enfermas de idades variadas.
Adotou-se como metodologia mescla de leitura, contação e
dramatização. Este curso iniciou-se no mês de agosto de 2001,
foi interrompido devido à greve dos servidores e professores da
UFSC, e retornou em março de 2002, terminado em maio.

2 BIBLIOTERAPIA

A biblioterapia pode estar direta ou indiretamente
associada a vários momentos da prática de saúde, sejam eles
diagnósticos ou terapêuticos. Nos processos diagnósticos
destaca-se a semiologia, nos terapêuticos a biblioterapia destacase
como uma das potenciais ferramentas terapêuticas. Segundo a
Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação do Ensino
Médico/CINAEM (2000, p. 171), a semiologia é a “arte, técnica
de conversar e examinar o paciente que tem como objetivo
descobrir, contextualizando e conhecendo a pessoa, para que se
chegue a um diagnóstico”. A semiologia atual busca significar o
processo de saúde e doença por uma única causa, geralmente
biológica. Como este processo tem influência de vários outros
campos, se faz necessário à semiologia agregar outros campos
de saberes. No estudo da CINAEM estes campos seriam: campo
mental, humanístico, de comunicação e educação, economia e
saúde, saúde pública, dentre outros. No campo da
comunicação/lingüística propõe-se como instrumentos a
“interpretação não verbal, exercícios práticos de comunicação e
observação, desenvolvimento da sensibilidade através das artes
(música, teatro, expressão corporal), técnicas pedagógicas”
(CINAEM, 2000, p. 287). Tais instrumentos já são empregados
pelos aplicadores da biblioterapia e são de grande valia na
reestruturação psicológica do paciente.

A biblioterapia pode ser aplicada para diferentes perfis de
indivíduos na sociedade, como afirma Ratton (1975, p. 199-200)
“sua utilização é considerada atualmente na profilaxia,
educação, reabilitação e na terapia propriamente dita, em
indivíduos nas diversas faixas etárias com doenças físicas ou
mentais”. Dentre estes perfis incluem-se as crianças
hospitalizadas, os idosos, os doentes mentais, os presidiários,
entre outros. O ponto em comum entre estes perfis é a carência
afetiva, emocional, social e de saúde. Alves (1982, p. 56)
destaca que o profissional aplicador desta atividade deve possuir
um “[...] conhecimento de psicologia e relações humanas [...]”,
cuja denominação ela chamou de “o bibliotecário clínico”.

“A biblioterapia é indicada sobretudo para crianças que
necessitem permanecer afastadas de seu ambiente familiar – em
creches e hospitais” (RATTON, 1975, p. 208). É interessante
ressaltar que a criança se sente fragilizada, principalmente
quando seus familiares não podem permanecer ao seu lado. O
desconforto presente nestes casos pode ser aliviado com as
sessões de leitura e atividades auxiliares. A criança, estimulada
pela novidade, acabará viajando num mundo de fantasias e
aventuras, cuja ferramenta-chave é o livro. Como afirma Ratton
(1975, p. 208) “a ampliação do ambiente e a possibilidade de
experimentar sentimentos e emoções em completa segurança são
os maiores benefícios proporcionados às crianças pelo livro”.

“Comentários feitos a respeito do texto ajudam o
estabelecimento da comunicação, levando o indivíduo a falar
sobre o que leu e, gradativamente, expressar-se sobre si próprio,
fazendo comparações, ou divagando” (RATTON, 1975, p. 209).
Estas interações proporcionam uma sensação de alívio, pois
aguçam a imaginação; conduzem a uma melhor interpretação da
história; estimulam o raciocínio lógico e o senso crítico;
reforçam a cultura devido a variedade de histórias e a
diversidade de assuntos que pode-se explorar. Estimulando as
crianças a pensar sobre o que leram e a dialogar, se estará
ajudando no seu restabelecimento psicológico e emocional,
libertando-as dos seus medos.

2.1 O livro como ferramenta-chave

O livro é a forma mais rica de se obter conhecimento,
“com um poder incomparável de penetração e irradiação”
(FARIA FILHO, 1998, p. 54). Analisando a literatura, Orsini
(1982, p. 140) enfatiza que “a obra literária oferece uma visão
do mundo e a leitura da mesma permite que o leitor amplie seu
universo perceptual e afetivo”.

Infelizmente, é dada pouca importância ao livro para
crianças abaixo de seis anos, “a primeira infância se converte em
uma idade importante para o processo de educação e
amadurecimento de uma pessoa” (FRAGOSO, 1998, p. 45 - 46).
É nesta fase que o contato com o livro ajuda no
desenvolvimento do caráter, formando a base para a
comunicação escrita; é neste momento que se encaixa o
profissional, seja ele da área da saúde ou da educação. Segundo
Orsini (1982, p. 147) a biblioterapia se aplica em diferentes
campos profissionais, tais como o campo da medicina geral, o
campo psiquiátrico, o campo educacional e o campo correcional.
Dentro da questão emocional “podem-se manter boas condições
psicológicas com a ajuda de livros intencionalmente escolhidos”
(RATTON, 1975, p. 206).

2.2 Preparação para a terapia

As crianças devem ser previamente preparadas para
receber e assimilar este tipo de atividade, pois encontram-se fora
de seu ambiente familiar. Como afirma Ratton (1975, p. 210)
“alguns doentes são tão pouco comunicativos, que a preparação
para a terapia se faz necessária”. Um planejamento adequado
certamente evitará surpresas desagradáveis, como a repulsa das
crianças ou o choque do bibliotecário ao deparar-se com doentes
terminais.

É importante levar em conta que nem todas as histórias são
adequadas para crianças hospitalizadas, por isso a “[...] seleção e
prescrição de livros de acordo com as necessidades dos
pacientes, condução da terapia baseada em comentários de
leitura, e avaliação dos resultados [...]” é necessária (RATTON,
1975, p. 199). Histórias que envolvam atividades que a criança
não possa realizar, ou com expressões difíceis, ou ainda, àquelas
muito complexas, devem ser evitadas.

Egan (1994, p.39-44) ensina:
Uma das características mais evidentes que
podemos observar nas histórias infantis é o uso
de oposições binárias. Os conflitos entre o bem e
o mal, a coragem e a cobardia, o medo e a
segurança, estão sempre presentes na história.
[...] Estas oposições binárias servem como
critérios para a seleção e organização do
conteúdo da história e constituem o fio condutor
ao longo do qual a história se desenvolve.[...] O
modo de começarmos (a aula ou a unidade)
precisa, portanto, de ser colocado de algum
modo em termos de conflito binário ou
problema; e o modo como terminamos deverá
resolver esse problema ou conflito, se quisermos
tirar partido do extraordinário poder da história
para desencadear a adesão afectiva da criança.

3 RELATO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS NO HOSPITAL UNIVERSITÁRIO

Segundo Sisto (2001, p. 29-37) a prática de contar
histórias envolve tanto o narrador quanto o ouvinte, e, para que
o envolvimento seja mútuo é necessária uma preparação prévia
do narrador. Para que a história a ser contada atraia a atenção o
contador deve criar uma expectativa e usar métodos que
envolvam principalmente a visão e a audição. Deve-se criar um
espaço imaginário, explorando a criatividade e preservando o
teor infantil.

Com base nas aulas teóricas, as histórias foram
criteriosamente selecionadas, bem como praticadas prévias
sessões de leitura do texto; houve preocupação com o tom da
voz e a postura física. O processo pré e pós-história deve ser
muito bem explorado com o objetivo de saber o grau de
entendimento da história.

A seguir segue o roteiro das atividades desenvolvidas pela
acadêmica na ala pediátrica do Hospital Universitário. Foram
realizadas cinco sessões de Biblioterapia, em cinco dias
diferentes, sempre no horário das 16:00 às 17:00 h. Em todos os
casos a metodologia adotada foi mescla de leitura, contação e
dramatização.

No dia trinta e um de agosto de 2001 iniciou-se a atividade
prática da disciplina. Após a análise de vários livros infantis, a
acadêmica escolheu a história de um joelho chamado Juvenal
que vivia se machucando e não gostava muito de ficar escondido
dentro da calça de seu dono, então ele teve uma idéia: pedir as
fábricas de calças que fizessem um orifício nas calças para que
ele não mais ficasse no escuro1. O motivo da escolha desta
história foi desenvolver o espírito imaginativo, a introspecção e
a catarse. Ao aplicar a leitura, procurou-se mostrar as ilustrações
para que as crianças pudessem ter uma melhor interpretação da
história. Com este objetivo também foi utilizada a reprodução
(xerox) de figuras do livro para que as crianças pudessem
colorir. Nas atividades de desenho e pintura, esperava-se
averiguar o grau de interpretação da história. Observou-se que o
local não possui a estrutura adequada (mesas, cadeiras, etc.) para
o desenvolvimento das atividades e a qualidade dos materiais
para desenho também é precária. Para suprir esta deficiência
optou-se por levar materiais auxiliares. As crianças mostraramse
interessadas nas atividades ali desenvolvidas e, realizaram
com sucesso as atividades de desenho, pintura e redação, esta
última para crianças alfabetizadas. A menina F. escreveu uma
redação, um breve resumo da história narrada. Os
acompanhantes demonstraram-se interessados em participar das
atividades e estimulavam as crianças a isso. Na medida do
possível as atividades foram bem produtivas, e as crianças foram
ativas durante todo o desenvolvimento das mesmas. Até mesmo
crianças deficientes, como foi o caso do menino L., estavam
bem ativas e receptivas.

No dia quatorze de março de 2002 optou-se pela história
de uma menina de mais ou menos oito anos que, como qualquer
criança desta idade, tem medo de algumas coisa. Medo do
escuro, de bicho papão, de lobo. Porém, quando este medo é
encarado, ela consegue superá-lo e passa a brincar com seus
próprios medos2. A acadêmica optou por esta história, pois
objetiva permitir a identificação das crianças com seus próprios
medos e superá-los. Objetivou-se auxiliar na desmistificação do
medo infantil. As crianças que estão no hospital encontram-se
fora de seu ambiente familiar, algumas delas até mesmo sem a
companhia dos pais. E o medo está muito presente nestes casos.
Como recurso auxiliar usou-se fantoches de papel e cópias de
ilustrações do livro (xerox) para colorir. Observou-se durante a
narração da história que as crianças permaneceram atentas,
porém apáticas e se dispersam ao final da história. As
atividades de diálogo sobre a história foram bem sucedidas,
ainda que com uma certa timidez. O acompanhamento dos pais
durante a narração da história demonstrou seu interesse e pôde
despertar nas crianças a vontade de interagir nas próximas
histórias. Como as crianças não quiseram colorir as ilustrações,
e, para que a história permanecesse na memória das crianças,
resolveu-se fazer a colagem das figuras em uma cartolina
vermelha e fixá-la na parede do hospital.

A terceira atividade ocorreu no dia vinte e um de março de
2002. A história escolhida pela acadêmica foi a de um príncipe
preguiçoso que deseja tornar-se adulto para poder fazer o que
quiser. Com um carretel encantado ele podia avançar a linha da
vida; porém foi avançando tanto que viu sua vida passar; tornouse
velho sem ter feito nada. Porém, foi lhe dada uma segunda
chance para que ele pudesse fazer algo de útil3. Escolheu-se esta
história, pois, objetiva favorecer a introspecção. Como recursos,
foram empregadas brincadeiras com carretéis. Esperou-se
desenvolver o gosto pelo trabalho e por atividades que
enriqueçam a vida. Verificou-se que poucas crianças
compareceram nesta atividade, pois muitas delas estavam em
exames médicos. Pôde-se notar que elas dispersaram a atenção
facilmente e que caso a narração não seja atrativa, os objetivos
não são alcançados. Após a narrativa, as atividades de
entretenimento e interpretação da história aconteceram de
maneira muito rápida; as crianças demonstraram impaciência,
contudo responderam logicamente as questões e assimilaram o
tema.

A literatura afirma que os contos de fada podem ou não ser
benéficos para as crianças. Segundo Cashdan (2000, p. 291),
deve-se tomar muito cuidado com alguns contos que estimulem
a vaidade, a gula, a inveja, a mentira, a luxúria, a avareza, a
preguiça. Nestes casos, devemos ajudar a criança a lidar com
estas questões através de indagações de como estas situações já
influenciaram sua vida e de que modo foram superadas.

No dia quatro de abril de 2002, a história escolhida pela
acadêmica foi a de uma princesa chamada Aurora que após o
nascimento foi amaldiçoada por uma bruxa. Quando
completasse 16 anos a princesa espetaria o dedo em uma agulha
e morreria. Mas uma das fadas mágicas modificou o feitiço e a
princesa ao invés de morrer iria dormir profundamente até que
um príncipe a acordasse com um beijo. Quando completou 16
anos a maldição se concretizou e a princesa dormiu
profundamente. Então as fadas foram à procura do príncipe,
encontrando-o contaram-lhe o que havia acontecido e ele se
dirigiu ao castelo e acordou a princesa com um beijo. Eles se
casaram e viveram felizes para sempre4. Com base neste conto
de fada, procurou-se favorecer a catarse, ajudar no processo
imaginativo e mostrar que nem sempre alguém vai poder ajudálas
quando estiverem em situações difíceis. Por ser uma história
envolvente, a acadêmica utilizou ilustrações: um boneco
representando o príncipe, uma boneca representando a princesa
e o desenho em cartolina do castelo. As crianças prestaram
atenção na história, os acompanhantes demonstram-se
interessados em participar das atividades e estimulavam as
crianças. A intenção inicial era interagir com as crianças
promovendo um debate sobre a história, fazendo uma
comparação com situações que elas já passaram. Porém isto não
foi possível, pois as crianças eram muito fechadas e tímidas.

Em um ambiente diferente daquele a que estão
acostumadas, e, sem os colegas habituais, as crianças tendem a
permanecer isoladas umas das outras, até que alguma forma de
interação aconteça, seja por meio da própria criança, seja por
meio de terceiros.

Optou-se no dia onze de abril de 2002 por narrar a história
de um cão que foi abandonado pelo seu dono na floresta, um
burro, um gato e um galo que fugiu de casa. Ao se encontrarem
na floresta os quatro animais ficaram amigos e decidiram seguir
para a cidade de Bremen para formar uma banda. O cão tocava
tambor, o burro tocava flauta, o gato tocava trombeta e o galo
cantava. No caminho, encontraram uma casinha e viram que lá
havia ladrões; decidiram então assustar os ladrões. Para fazer
isso um saltou nas costas do outro: o cão subiu no burro, o gato
ficou nas costas do cachorro e o galo, em cima do gato. No
escuro eles pareciam uma figura monstruosa e então os ladrões
fugiram. Os quatro amigos resolveram morar naquela casa e
formar uma banda ali mesmo5. Esta história foi
propositadamente escolhida pela acadêmica para que as crianças
aprendessem a trabalhar em grupo, a dividir tarefas e
desenvolver a coragem. Para ilustrar a história foram utilizados
bichinhos de plástico representado os animais. Primeiramente a
acadêmica fez uma narração individual para as crianças que
estavam em seus leitos por ordens médicas; deste modo obtevese
100% de atenção da criança, houve melhor interpretação da
história e maior envolvimento entre o narrador e a criança. Após
a leitura individual, foi feita a narração em grupo para as outras
crianças. Ao término, foi solicitado a uma criança que não sabia
ler, para contar a história. Apenas olhando as ilustrações do livro
ela pôde narrar de forma lógica a história que acabara de ouvir.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nestas atividades não houve dúvidas que a
biblioterapia aplicada a crianças enfermas alivia suas tensões,
angústias e medos, desenvolve a imaginação, favorece a
introspecção, a catarse e ajuda no crescimento emocional e
psicológico.

No decorrer do processo prático, notou-se uma maior
receptividade das crianças e dos adultos (pais ou
acompanhantes) que mostram-se atentos e dispostos a ajudar no
processo. Segundo as estagiárias de psicologia, que por algum
tempo auxiliaram nas atividades de biblioterapia, foram
observadas mudanças culturais nas crianças, como o maior
hábito para a leitura, pois as mesmas passaram a procurar na
sala de recreação, além dos brinquedos, os livros infantis.
Infelizmente é difícil manter esta tendência ao hábito da leitura,
pois a rotatividade das crianças é constante, já que elas não
permanecem muito tempo em internação. É claro que a solução
não é mantê-las por mais tempo em internação e sim aplicar a
biblioterapia em casa, escolas, creches, etc.

A cultura da leitura pode despertar o prazer de tratar-se
ou buscar tratamento ou ainda a reabilitação de sua saúde, ligada
à semiologia e ao cuidado ou avaliação da evolução do paciente.

O relacionamento de um profissional que exerce a
biblioterapia com o paciente pode fornecer subsídios ao
profissional da saúde no processo complementar da história
clínica ou no processo saúde-doença como fonte de captar
sinais.

A figura a seguir mostra as relações da prática médica
com seu objeto/sujeito e as ciências:

Fig. 01 - relações da prática médica com seu objeto/sujeito e as ciências

FIGURA

Fonte: CINAEM, 2000, p. 287.

Os itens em destaque nesta figura significam:
a) ACOLHER – receber, atender, assistir, ouvir, ver a
necessidade em saúde,
b) COMPREENDER – compreender como as necessidades
em saúde influenciam a vida do paciente,
c) SIGNIFICAR – significar as necessidades no processo
saúde-doença,
d) RESPONSABILIZAR – o paciente é responsável pelo
seu próprio cuidado, assim como o profissional de saúde
é responsável pela necessidade do paciente,
e) INTERVIR – planejamento, escolha e execução de
métodos e técnicas de intervenção, sejam elas clínicas,
cirúrgicas, sanitárias, epidemiológicas, sociais, culturais,
acadêmicas, políticas, etc.
f) RESOLVER – efetividade em resolução.

Assim, a biblioterapia pode estar presente no ato de
ACOLHER – aquele que está disposto a falar e a ouvir, a
brincar, a educar e aliviar as tensões através do livro; no ato de
SIGNIFICAR – aquele que avalia as necessidades e procura na
leitura dirigida explorar as questões pessoais; e no ato de
INTERVIR – quando se afeta culturalmente e socialmente o
paciente. Pelo fato de trabalhar diretamente nas relações mais
humanas do paciente a biblioterapia influenciará o trabalho do
profissional de saúde no SIGNIFICAR e INTERVIR do
processo saúde-doença.

Enfim, associando este gráfico a estes conceitos, a prática
e teoria, pode-se concluir que a biblioterapia é uma ferramenta
para a semiologia e a terapêutica, favorecendo a humanização
das mesmas. A curto prazo, a biblioterapia pode estar ligada em
atividades de prevenção, educação e extensão em saúde; e a
longo prazo, fazendo parte de uma equipe de saúde, assim como
o nutricionista, assistente social, fisioterapeuta, etc.

NOTAS

1 PINTO, Ziraldo Alves. O joelho Juvenal. Ilustrações de Ziraldo Alves
Pinto. São Paulo: Melhoramentos, c1983. (Coleção Corpim).
2 BUARQUE, Chico. Chapeuzinho Amarelo. Ilustrações de Ziraldo. 7 ed.
Rio de Janeiro: J. Olympio, 2000.
3 O CARRETEL encantado. In: 365 histórias da vovozinha. São Paulo:
Girassol.[199-]. p. 7.
4 ANDRADE, Marisa Tuzi. A bela adormecida. Ilustrações de Robson V. de
Souza Andrade; Marisa Tuzi Andrade. Manaus: Pais & Filhos, [199-].
(Coleção Clássicos Infantis).
5 OS MÚSICOS de Bremen. Ilustrações de Belli Studio. [S.l.]: Todo livro,
[199-]. (Coleção Fábulas de ouro).

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______________

BIBLIOTHERAPY AND SICK CHILDREN

Abstract

The text talks about the application of the bibliotherapy in sick children, the importance of the reading in the search of the prevention and education, as well as her therapeutic function. It presents a report of the bibliotherapy activities developed in the pediatric line of the University Hospital in Florianópolis - SC. It analyzes the children's hospitalized front behavior the practice of the reading with dynamic methodologies. With base in these activities could be noticed that the applied bibliotherapy to sick children relieves their tensions, anguishes and fears, it develops the imagination, and it favors the introspection, the catharsis and help in the emotional and psychological growth. Conclude that the bibliotherapy is a tool for the semiology and the therapeutics, favoring the humanization of the same ones and helping in the children's recovery.
Keywords: Bibliotherapy; Hospitalized children; Reading; Recovery - hospitalized children

____________

Silvana Beatriz Bueno

Acadêmica da 8a fase do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Relatório Final do Curso de Biblioterapia.
E-mail: silvanabueno@yahoo.com.br

Clarice Fortkamp Caldin

Mestre em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Professora no Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
E-mail: claricef@matrix.com.br
Rev. ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, v. 7, n. 2, p. 157-170, 2002.

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Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis (Brasil) - ISSN 1414-0594

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